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Cinema
engajado
Os cineclubes foram um espaço de encontro de
intelectuais nos anos de 1960, mas perdeu força nas décadas seguintes. Qual o
papel dos cineclubes atualmente?
Acredito que os
cineclubes estão voltando com força total. Na minha geração, cineclube foi a
grande escola. Quem quisesse fazer cinema tinha de ser um pouco autodidata. Era
mais um espaço político, para se debater questões da sociedade. Depois, vieram
os recursos tecnológicos, as mídias digitais, e não era mais preciso ir ao
cineclube. Mas hoje esse espaço volta a ser um local para debate dos mais
diversos temas. Os cineclubes possibilitaram o surgimento de cineastas e filmes
fantásticos. Tinha muito filme amador. Eram organizados festivais para
apresentar esses filmes. Até o Bruno Barreto, que já era um cineasta conhecido,
participava dessas mostras. Os cineclubes também eram um local de formação de
público. Lembro que o Glauber Rocha era nosso grande ícone. Fazíamos algumas
sessões fechadas, com filmes proibidos pela censura, como o Encouraçado
Potemkin. Isso contribuiu muito para minha formação.
O início de sua carreira
ocorreu durante a ditadura militar. Como foi esse contexto para o senhor?
Respondi a um processo, em 1969, fiquei em prisão domiciliar. Mas
não fui torturado, nem preso. Via alguns amigos morrendo, de droga ou de tiro.
A luta armada era furada e não queria me drogar. Então, em 1970, decidi sair do
País. Fui para o Chile, no período do governo democrático de Salvador Allende.
Foram os anos mais felizes da minha vida. O espírito da democracia nos
empolgava, a luta por Reforma Agrária, tudo regado a vinho e boa comida.
Posteriormente, eu me mudei para Paris. Tinha contatos na França e consegui me
matricular numa escola de cinema e ciências sociais. Minha ‘praia’ era o cinema
político. Eu via o cinema como uma ferramenta da revolução.
Nesse período, já pensava
em explorar o gênero de documentário?
Sim, desde 1968, quando tive acesso a uma publicação da Cinemateca
do MAM. Sonhava em colocar a realidade nas telas. Minha referência era Joaquim
Pedro de Andrade, com quem tive mais contato. Gosto muito de História e,
conseqüentemente, de pesquisar imagens de arquivo. Acredito que essa memória é
essencial para o País. Meus filmes estão repletos dessas imagens, que eu mesmo
pesquiso e recolho.
Seu primeiro longa-metragem
[Os anos JK – uma trajetória política] têm imagens preciosas, como a da posse do ex-presidente...
Quando voltei ao Brasil, em 1976, estava disposto a fazer um filme
com enfoque político. Fiz um levantamento sobre os temas que estavam em alta, e
que tivessem alguma relação com a política, e descobri que o Brasil falava
sobre a morte de Juscelino Kubitschek. Decidi, então, fazer um filme sobre a
vida dele. Naquele momento, as pessoas não tinham muita coragem de falar sobre
isso. A propaganda ideológica que sustentava o governo militar era de que, no
Brasil, não poderia haver desenvolvimento com democracia. E o governo de JK era
justamente a prova de que o País tinha condições de se desenvolver num governo
democrático. Comecei a pesquisar imagens, mas vi que não havia muita coisa.
Muita gente havia destruído essas imagens, temendo represálias dos militares.
Até que conheci um publicitário que havia guardado, debaixo da cama, alguns
rolos de imagens da época. Paralelamente, fiz pesquisa histórica e entrevistas
com pessoas que viveram aquele período. Como foi feito ainda durante a
ditadura, sofremos represálias, nosso produtor foi ameaçado. Levei dois anos e
meio para concluir o filme, que teve o impressionante público de 800 mil
espectadores, acho que porque veio no bojo da luta pela redemocratização.
Seu segundo longa-metragem
[Jango] também foi sobre um
personagem político...
Quando concluí o filme de JK, recebi a indicação de fazer um filme
sobre o Jango, mas imaginava que seria ainda mais complicado, por conta das
imagens de arquivo. No entanto, eu já era um cineasta conhecido e isso
facilitou as buscas de arquivos. O curioso é que, assim que o filme foi
concluído, tivemos de fazer uma sessão fechada para os censores. Nos primeiros
15 minutos de exibição, mandaram parar e disseram que esse filme não passaria
de jeito nenhum. Mas, um dos censores tinha simpatizado conosco e sugeriu que
mostrássemos o filme para a imprensa. Fizemos uma sessão fechada para os jornalistas
e não deu outra: eles compraram nossa briga, começaram a falar sobre o filme e
daí não teve jeito. A censura acabou liberando e o filme foi visto por 1 milhão
de espectadores. Jango ficou
conhecido como o filme das Diretas Já.
Juscelino, Jango... o
senhor faz um cinema de heróis?
Sim, por que não? Já fui chamado de cineasta dos sonhos
interrompidos, porque retrato heróis que não voltam para seus postos. Não são
heróis vitoriosos. Dizem que a História é contada pelos vencedores. Eu, com
muito orgulho, conto a história dos vencidos.
O geógrafo Milton Santos,
personagem de outro documentário seu, seria um deles?
Milton Santos tinha razão. Quando a gente avalia suas ideias,
percebe que ele estava certo. Quando ele nos concedeu essa entrevista, em 2001,
alertava sobre os problemas da Globalização, quando o mundo inteiro a defendia
como o melhor caminho para o desenvolvimento do planeta. A princípio, essa
entrevista seria apenas um capítulo de um outro filme que estou preparando há
19 anos [Uropia e barbárie]. Mas suas
ideias eram tão instigantes que fiquei hipnotizado e resolvi fazer um filme com
esse material. Soube que Milton Santos já estava doente e decidi fazer a
entrevista naquele momento. O Milton me disse: “A Globalização não vai dar
certo, porque não tem para todo mundo”. Hoje, percebemos o quanto ele estava
certo. O mundo está em busca de um outro modelo de desenvolvimento,
sustentável. O fato de termos um presidente operário, no Brasil, um negro, nos
EUA, e um índio, na Bolívia, é prova disso.
O senhor se considera um
cineasta otimista?
Sim, faço um cinema otimista. Prova maior disso é que todos os meus
personagens lutaram para mudar o mundo, para melhorá-lo.
O senhor também teve uma
experiência com televisão...
Sim, foi uma experiência curta, não durou nem um ano. Fui diretor de um
canal de TV em Brasília. Na minha opinião, televisão é um outro trabalho, tem
uma linguagem diferente da do cinema. Mas não dispenso esse veículo de
comunicação, tenho filmes que são exibidos na TV. E até faria um trabalho
específico para televisão.
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