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Corpo, moda, beleza e sexo: imagens de mulher na mídia impressa
Jornais,
revistas, televisão e cinema constroem figuras de mulher que povoam nosso
imaginário visual. São imagens que inspiram e induzem formas de ser e de agir.
Que imagens são essas? Que modelos oferecem?
Os grandes
jornais diários não estampam muitas mulheres. Na primeira página, elas costumam
surgir mais como atrativo: jovens, bonitas, quase sempre celebridades. Nas
páginas internas, nas seções de política, só aparecem se são presidentes,
governadoras ou candidatas. Na editoria de cidades ou cotidiano, sua presença é
um pouco maior, principalmente se relacionada a enchentes, violência com os
filhos ou problemas de saúde e educação. As revistas semanais de informação
também não trazem muitas mulheres, a não ser em matérias especiais sobre dieta,
cirurgia plástica e nas seções tipo “guia” de práticas, serviços e consumo.
Nas revistas
femininas, as mulheres comparecem em quase todas as páginas. Mas que tipo de
presença? De um modo geral, não há diversidade de narrativas nas revistas
femininas. Falta narrativa; as historinhas são sempre as mesmas.
Façamos um vôo
panorâmico sobre a imprensa feminina. As primeiras publicações começaram
divulgando literatura, algumas ideias de cidadania; já no século XIX traziam
moda. A França era a matriz mais forte – e ainda nem se pensava numa palavra
como globalização. De qualquer maneira, o fenômeno da moda trazia embutida a
característica de influência internacional. No Brasil, a imprensa feminina,
iniciada em 1827, um pouco depois da proclamação da Independência, tratava de
literatura, moda, cultura. Comportamento, grande tema, já aparecia. No século
XX, a crescente urbanização, a imigração, o desenvolvimento do cinema, a
indústria de cosméticos fizeram surgir muitas revistas dedicadas às mulheres.
A comunicação de
massa, o avanço do capitalismo, o surgimento da sociedade de consumo e sua
grande alavanca, a publicidade, tornaram as revistas femininas imprescindíveis
para o do mercado. As revistas femininas são casadas, cada vez mais, em
comunhão de bens com o mercado. Nesse sentido, talvez não seja possível cobrar
que elas abram muito espaço para temas políticos e de participação social.
Mesmo assim, poderiam trazer mais narrativas de mulheres de verdade. Já houve
revistas comerciais estrangeiras que se recusaram a publicar anúncios que
coisificavam demais a figura feminina. Seria pedir muito que as revistas não se
subordinassem tanto aos imperativos da publicidade e à força da televisão?
Sabemos que sua existência depende da sintonia que cultivam com a venda e
divulgação de produtos. No entanto, é viável pedir um pouco mais de diversidade
e de representação da variedade étnica brasileira.
Há sessenta
anos, o público adolescente ainda não havia sido descoberto pela mídia. Uma
revista como “Capricho” – com fotonovelas – era dirigida a uma faixa em torno
dos vinte anos de idade e também para mulheres casadas. “Claudia”, iniciada em
1961, trazia muita moda, culinária e dicas de beleza. As duas acentuavam a
mulher mais recatada, a jovem tímida, a dona de casa ideal. Havia o conceito de
“menina de família”, que não podia ser muito atirada em suas conquistas e nem
exibir grande sensualidade. Somente uma voz destoava: nas páginas de “Claudia”,
a psicóloga Carmen da Silva defendia o direito ao prazer, a autonomia em
relação ao homem, a realização profissional.
Hoje, as
histórias mudaram um pouco, mas a finalidade de arranjar um parceiro ainda é um
imperativo. Existem revistas até para meninas pré-adolescentes. As adolescentes
dispõem de várias publicações que investem na cultura pop, nas séries e novelas
televisivas, no ambiente de escola e nas redes sociais da internet – com as
devidas sugestões de consumo de produtos. Namoro é o assunto presente em todas
as edições. Quase sempre a identidade da menina depende da sua capacidade de
atrair um menino. A palavra “sexo”, que pouco aparecia até os anos 1980, agora
é onipresente nas publicações femininas de todas as idades. Insinuações sexuais
estão na maioria das capas. Parece incrível: nos anos de liberação sexual (1960
e 1970), com o uso da pílula e a filosofia de “paz e amor”, poucas revistas se
aventuravam a escrever com todas as letras a palavra “orgasmo” ou termos
relativos aos órgãos genitais femininos e masculinos. Mesmo assim, eram uma
forma de educação sexual. Atualmente, revistas para mulheres jovens e liberadas
trazem verdadeiros manuais de performance sexual, com inúmeros detalhes,
servindo até de cartilha para meninos que se iniciam nas artes da sedução.
A filosofia predominante vai na linha da super mulher: boa de cama,
excelente profissional, boa mãe – quando é o caso –, corpo escultural, sempre
linda e maravilhosa. Talvez possamos apontar dois tipos básicos de imagem de
mulher nas revistas femininas brasileiras: a mulher corpo-moda, que segue as
últimas tendências em roupa, acessórios, produtos de beleza, dietas, cirurgia
plástica; e a mulher sexo-óbvio-ululante, que deve respirar e expressar sexo em
todos os momentos. Os dois tipos mantêm um produtivo diálogo: para se ter um
sexo incrível é preciso ter um corpo sensacional. O enredo é um só: imite as
artistas da televisão, vista-se bem, desvista-se melhor ainda, modele seu corpo
com próteses – para conseguir seu homem. Ter um companheiro, sentir-se bonita e
valorizada, tudo isso é bom e desejável. Porém existem muitos caminhos além
desse roteiro básico. Nós mulheres precisamos de mais narrativas, de mais
histórias.

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