terça-feira, 07 setembro 2010
 
 
 
Março 2010

Corpo, moda, beleza, sexo
Imagens de mulher na mídia impressa

Por: Dulcilia H. S. Buitoni
Foto: Stock.xchng

Corpo, moda, beleza e sexo: imagens de mulher na mídia impressa

 

Jornais, revistas, televisão e cinema constroem figuras de mulher que povoam nosso imaginário visual. São imagens que inspiram e induzem formas de ser e de agir. Que imagens são essas? Que modelos oferecem?

 

Os grandes jornais diários não estampam muitas mulheres. Na primeira página, elas costumam surgir mais como atrativo: jovens, bonitas, quase sempre celebridades. Nas páginas internas, nas seções de política, só aparecem se são presidentes, governadoras ou candidatas. Na editoria de cidades ou cotidiano, sua presença é um pouco maior, principalmente se relacionada a enchentes, violência com os filhos ou problemas de saúde e educação. As revistas semanais de informação também não trazem muitas mulheres, a não ser em matérias especiais sobre dieta, cirurgia plástica e nas seções tipo “guia” de práticas, serviços e consumo.

 

Nas revistas femininas, as mulheres comparecem em quase todas as páginas. Mas que tipo de presença? De um modo geral, não há diversidade de narrativas nas revistas femininas. Falta narrativa; as historinhas são sempre as mesmas.

 

Façamos um vôo panorâmico sobre a imprensa feminina. As primeiras publicações começaram divulgando literatura, algumas ideias de cidadania; já no século XIX traziam moda. A França era a matriz mais forte – e ainda nem se pensava numa palavra como globalização. De qualquer maneira, o fenômeno da moda trazia embutida a característica de influência internacional. No Brasil, a imprensa feminina, iniciada em 1827, um pouco depois da proclamação da Independência, tratava de literatura, moda, cultura. Comportamento, grande tema, já aparecia. No século XX, a crescente urbanização, a imigração, o desenvolvimento do cinema, a indústria de cosméticos fizeram surgir muitas revistas dedicadas às mulheres.

 

A comunicação de massa, o avanço do capitalismo, o surgimento da sociedade de consumo e sua grande alavanca, a publicidade, tornaram as revistas femininas imprescindíveis para o do mercado. As revistas femininas são casadas, cada vez mais, em comunhão de bens com o mercado. Nesse sentido, talvez não seja possível cobrar que elas abram muito espaço para temas políticos e de participação social. Mesmo assim, poderiam trazer mais narrativas de mulheres de verdade. Já houve revistas comerciais estrangeiras que se recusaram a publicar anúncios que coisificavam demais a figura feminina. Seria pedir muito que as revistas não se subordinassem tanto aos imperativos da publicidade e à força da televisão? Sabemos que sua existência depende da sintonia que cultivam com a venda e divulgação de produtos. No entanto, é viável pedir um pouco mais de diversidade e de representação da variedade étnica brasileira.

 

Há sessenta anos, o público adolescente ainda não havia sido descoberto pela mídia. Uma revista como “Capricho” – com fotonovelas – era dirigida a uma faixa em torno dos vinte anos de idade e também para mulheres casadas. “Claudia”, iniciada em 1961, trazia muita moda, culinária e dicas de beleza. As duas acentuavam a mulher mais recatada, a jovem tímida, a dona de casa ideal. Havia o conceito de “menina de família”, que não podia ser muito atirada em suas conquistas e nem exibir grande sensualidade. Somente uma voz destoava: nas páginas de “Claudia”, a psicóloga Carmen da Silva defendia o direito ao prazer, a autonomia em relação ao homem, a realização profissional.

 

Hoje, as histórias mudaram um pouco, mas a finalidade de arranjar um parceiro ainda é um imperativo. Existem revistas até para meninas pré-adolescentes. As adolescentes dispõem de várias publicações que investem na cultura pop, nas séries e novelas televisivas, no ambiente de escola e nas redes sociais da internet – com as devidas sugestões de consumo de produtos. Namoro é o assunto presente em todas as edições. Quase sempre a identidade da menina depende da sua capacidade de atrair um menino. A palavra “sexo”, que pouco aparecia até os anos 1980, agora é onipresente nas publicações femininas de todas as idades. Insinuações sexuais estão na maioria das capas. Parece incrível: nos anos de liberação sexual (1960 e 1970), com o uso da pílula e a filosofia de “paz e amor”, poucas revistas se aventuravam a escrever com todas as letras a palavra “orgasmo” ou termos relativos aos órgãos genitais femininos e masculinos. Mesmo assim, eram uma forma de educação sexual. Atualmente, revistas para mulheres jovens e liberadas trazem verdadeiros manuais de performance sexual, com inúmeros detalhes, servindo até de cartilha para meninos que se iniciam nas artes da sedução.

 

A filosofia predominante vai na linha da super mulher: boa de cama, excelente profissional, boa mãe – quando é o caso –, corpo escultural, sempre linda e maravilhosa. Talvez possamos apontar dois tipos básicos de imagem de mulher nas revistas femininas brasileiras: a mulher corpo-moda, que segue as últimas tendências em roupa, acessórios, produtos de beleza, dietas, cirurgia plástica; e a mulher sexo-óbvio-ululante, que deve respirar e expressar sexo em todos os momentos. Os dois tipos mantêm um produtivo diálogo: para se ter um sexo incrível é preciso ter um corpo sensacional. O enredo é um só: imite as artistas da televisão, vista-se bem, desvista-se melhor ainda, modele seu corpo com próteses – para conseguir seu homem. Ter um companheiro, sentir-se bonita e valorizada, tudo isso é bom e desejável. Porém existem muitos caminhos além desse roteiro básico. Nós mulheres precisamos de mais narrativas, de mais histórias.

 

 
Dulcilia H. S. Buitoni: é jornalista, professora universitária e autora de “Mulher de papel: a representação da mulher pela imprensa feminina brasileira”, S. Paulo, Summus, 2009.