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O futuro
do audiovisual
Qual o papel do
audiovisual como difusor da cultura no Brasil?
O audiovisual é
muito forte no Brasil. Se a gente pensar em televisão, cinema e mais agora os
videogames, em que o Brasil está sendo apontado como celeiro, o audiovisual é
importante. A questão é: que tipo de conteúdos esse audiovisual deve ou pode
levar para a população brasileira? Muita gente critica a televisão brasileira;
ela é uma das melhores do mundo, mas não aborda temas que seriam de interesse
geral ou aborda temas a partir de determinados ângulos que não são muito
certos. Mas existe uma relação forte do brasileiro com o audiovisual. A única
coisa que posso comentar é que, claro, eu gostaria que essa enorme penetração
do audiovisual no Brasil tivesse mais qualidade humana em seu conteúdo.
Na sua opinião,
a TV brasileira consegue abranger, em sua programação, a diversidade presente
em nossa cultura?
Há um esforço da
televisão nesse sentido, mas a nossa diversidade ainda é maior do que esse
esforço. Todo trabalho que foi feito para instalar uma nova TV pública no
Brasil tinha esse sentido de oferecer ao máximo para a população essa
diversidade cultural, inclusive entendendo como diversidade cultural não só a
interna do País, mas também a diversidade cultural planetária. No cinema, por
exemplo, e também na TV por assinatura, a gente tem um tipo de conteúdo que vem
de um lugar só, os EUA. Então, quando se fala em diversidade cultural, temos de
pensar no mundo. O brasileiro merece. A cultura brasileira seria super oxigenada
se a gente tivesse materiais audiovisuais de distintas partes do mundo. A gente
tem muito pouco disso. E esse é um dos aspectos do nosso audiovisual que eu
também gostaria que mudasse. Ou seja, que fosse mais aberto às distintas
culturas e povos de outros países.
A criação da TV
Brasil gerou discussões sobre a real necessidade de se investir em um canal
público. Por que houve tanta resistência a essa ideia?
Não creio que a
sociedade teve qualquer resistência. Inclusive essa ideia de que a mídia
representa a opinião pública não condiz com a realidade. A mídia é só parte da
opinião pública. O projeto da TV Brasil, que ainda está em progresso, foi
combatido não pela TV em si, mas da existência de uma TV pública. Há um certo
temor por trás disso porque se a TV pública consegue materializar o projeto,
poderia ganhar audiência, ou seja, conquistar e ampliar o público telespectador
e concorrer com a TV comercial. A televisão pública do Chile tem a maior
audiência do país. Na Europa existem várias televisões públicas que disputam de
maneira muito forte a audiência com a TV comercial. Eu acho que há esse receio
da televisão comercial de que isso possa a acontecer no Brasil como aconteceu
em outros países. Acho que as críticas com relação a esse projeto tiveram mais
um cunho político, de que seria uma televisão do governo. Na verdade, era uma
confusão entre TV estatal e TV pública, mas elas são completamente diferentes.
TV estatal são os governos dialogando com a sociedade. E TV pública é uma
questão da sociedade, tem de ser equidistante da TV estatal e da TV comercial.
A grande “mágica” da TV pública é isso, ser a expressão da sociedade.
O sucesso de
sites de vídeo e dos celulares com câmera é prova de que existe um público
disposto a explorar a linguagem audiovisual. Como esse material pode ser
aproveitado?
Acho que vai além
aproveitamos esse material para exibição pelos canais convencionais; a TV vai
ter de se abrir para a interatividade. Ainda estamos numa fase das cavernas da
interatividade, mas daqui a pouco ela estará aí. Falo também da utilização
individual. Há dois anos conto uma história de uma sobrinha minha que conversou
ao telefone com uma amiguinha sem dizer uma palavra. Essa amiga a perguntou,
por torpedo, como tinha sido a festinha da noite anterior. Ela respondeu: veja.
E mandou algumas fotos. A outra respondeu por torpedo: e o gato, estava? Ela
mandou a foto do tal gato. Não falaram nada. Algumas palavras só para
introduzir imagens. Eu acho que isso vai se tornar uma coisa comum. Daí você abre
o projeto do audiovisual em todos os aspectos. Tem a questão da diversidade
cultural, que já mencionamos. Na área econômica, não há dúvida de que a
comunicação é a grande economia do século 21. E na comunicação a cabeça de
ponta é o audiovisual. Ou seja, vai ser a maior indústria do planeta. Vai mexer
no nosso bolso, na qualidade de vida, nos empregos. São esses aspectos que
nortearam o projeto político implantado pelo governo federal desde 2003: o
simbólico, o cidadão e o econômico ou, dizendo de outra forma, o artístico, o
político e o financeiro.
De que forma o
senhor acredita que a TV digital mudará a relação com os telespectadores?
A televisão vira
computador. Já se fala em uma interatividade comercial, que é aquela história
de se descobrir e comprar a roupa que determinado personagem está usando na
novela. Mas outra forma é o telespectador mudar a roupa do personagem,
transformando-se em um agente que interfere na criação. Mais como
desenvolvimento de uma nova linguagem. Acho que a gente vai até a realidade
virtual; o telespectador fica dentro do filme. Eu me submeti a uma experiência
dessas, em Paris: era uma sala pequena, com apenas uma cadeira e um capacete.
Mas havia virtualmente uma mesa, cadeira, sofá. Eu experimentei tocar e sentia
a textura do sofá, apesar de não ser real. Era uma sensação incrível. Esse é um
tipo de interatividade em que o telespectador também é um autor. Outro exemplo:
eu assisto a um programa com três personagens; uma delas sai da sala. Com a
realidade virtual, eu posso escolher se fico nessa sala ou se acompanho a
pessoa que saiu, para saber o que vai fazer. E aí é outra TV, outro cinema,
outro audiovisual.
Que avaliação o
senhor faz sobre a implementação da classificação indicativa pela TV?
A classificação
indicativa é necessária. Os canais é que às vezes reclamavam. Acho que o
projeto está se acomodando, mas ainda existe muito mau uso disso. Todo dia a
gente vê programação à tarde com filmes impróprios. Ainda há essa tentativa de
tentar driblar a lei com a programação. A defesa dos canais em não aderir era
dizer que as famílias é que deviam cuidar disso. Mas isso é complicado,
especialmente com as novas tecnologias. É impossível controlar isso, a não ser
não exibindo em horário indevido. E há de se considerar também o momento
histórico e a cultura do lugar. Quem tem 18 anos hoje tem uma relação com o
mundo diferente do que há 50 anos. Jovem brasileiro é muito diferente do
latino-americano, conhece mais coisa, tem mais liberdade sexual. E isso vai se
refletir na programação e no que é considerado inadequado para cada idade.

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