terça-feira, 07 setembro 2010
 
 
 
Março 2010

Orlando Senna
Fala sobre o futuro do audiovisual

Por: Orlando Senna
Foto: Fábio de Andrade

O futuro do audiovisual

 

Qual o papel do audiovisual como difusor da cultura no Brasil?

O audiovisual é muito forte no Brasil. Se a gente pensar em televisão, cinema e mais agora os videogames, em que o Brasil está sendo apontado como celeiro, o audiovisual é importante. A questão é: que tipo de conteúdos esse audiovisual deve ou pode levar para a população brasileira? Muita gente critica a televisão brasileira; ela é uma das melhores do mundo, mas não aborda temas que seriam de interesse geral ou aborda temas a partir de determinados ângulos que não são muito certos. Mas existe uma relação forte do brasileiro com o audiovisual. A única coisa que posso comentar é que, claro, eu gostaria que essa enorme penetração do audiovisual no Brasil tivesse mais qualidade humana em seu conteúdo.

Na sua opinião, a TV brasileira consegue abranger, em sua programação, a diversidade presente em nossa cultura?

Há um esforço da televisão nesse sentido, mas a nossa diversidade ainda é maior do que esse esforço. Todo trabalho que foi feito para instalar uma nova TV pública no Brasil tinha esse sentido de oferecer ao máximo para a população essa diversidade cultural, inclusive entendendo como diversidade cultural não só a interna do País, mas também a diversidade cultural planetária. No cinema, por exemplo, e também na TV por assinatura, a gente tem um tipo de conteúdo que vem de um lugar só, os EUA. Então, quando se fala em diversidade cultural, temos de pensar no mundo. O brasileiro merece. A cultura brasileira seria super oxigenada se a gente tivesse materiais audiovisuais de distintas partes do mundo. A gente tem muito pouco disso. E esse é um dos aspectos do nosso audiovisual que eu também gostaria que mudasse. Ou seja, que fosse mais aberto às distintas culturas e povos de outros países.

A criação da TV Brasil gerou discussões sobre a real necessidade de se investir em um canal público. Por que houve tanta resistência a essa ideia?

Não creio que a sociedade teve qualquer resistência. Inclusive essa ideia de que a mídia representa a opinião pública não condiz com a realidade. A mídia é só parte da opinião pública. O projeto da TV Brasil, que ainda está em progresso, foi combatido não pela TV em si, mas da existência de uma TV pública. Há um certo temor por trás disso porque se a TV pública consegue materializar o projeto, poderia ganhar audiência, ou seja, conquistar e ampliar o público telespectador e concorrer com a TV comercial. A televisão pública do Chile tem a maior audiência do país. Na Europa existem várias televisões públicas que disputam de maneira muito forte a audiência com a TV comercial. Eu acho que há esse receio da televisão comercial de que isso possa a acontecer no Brasil como aconteceu em outros países. Acho que as críticas com relação a esse projeto tiveram mais um cunho político, de que seria uma televisão do governo. Na verdade, era uma confusão entre TV estatal e TV pública, mas elas são completamente diferentes. TV estatal são os governos dialogando com a sociedade. E TV pública é uma questão da sociedade, tem de ser equidistante da TV estatal e da TV comercial. A grande “mágica” da TV pública é isso, ser a expressão da sociedade.

O sucesso de sites de vídeo e dos celulares com câmera é prova de que existe um público disposto a explorar a linguagem audiovisual. Como esse material pode ser aproveitado?

Acho que vai além aproveitamos esse material para exibição pelos canais convencionais; a TV vai ter de se abrir para a interatividade. Ainda estamos numa fase das cavernas da interatividade, mas daqui a pouco ela estará aí. Falo também da utilização individual. Há dois anos conto uma história de uma sobrinha minha que conversou ao telefone com uma amiguinha sem dizer uma palavra. Essa amiga a perguntou, por torpedo, como tinha sido a festinha da noite anterior. Ela respondeu: veja. E mandou algumas fotos. A outra respondeu por torpedo: e o gato, estava? Ela mandou a foto do tal gato. Não falaram nada. Algumas palavras só para introduzir imagens. Eu acho que isso vai se tornar uma coisa comum. Daí você abre o projeto do audiovisual em todos os aspectos. Tem a questão da diversidade cultural, que já mencionamos. Na área econômica, não há dúvida de que a comunicação é a grande economia do século 21. E na comunicação a cabeça de ponta é o audiovisual. Ou seja, vai ser a maior indústria do planeta. Vai mexer no nosso bolso, na qualidade de vida, nos empregos. São esses aspectos que nortearam o projeto político implantado pelo governo federal desde 2003: o simbólico, o cidadão e o econômico ou, dizendo de outra forma, o artístico, o político e o financeiro.

De que forma o senhor acredita que a TV digital mudará a relação com os telespectadores?

A televisão vira computador. Já se fala em uma interatividade comercial, que é aquela história de se descobrir e comprar a roupa que determinado personagem está usando na novela. Mas outra forma é o telespectador mudar a roupa do personagem, transformando-se em um agente que interfere na criação. Mais como desenvolvimento de uma nova linguagem. Acho que a gente vai até a realidade virtual; o telespectador fica dentro do filme. Eu me submeti a uma experiência dessas, em Paris: era uma sala pequena, com apenas uma cadeira e um capacete. Mas havia virtualmente uma mesa, cadeira, sofá. Eu experimentei tocar e sentia a textura do sofá, apesar de não ser real. Era uma sensação incrível. Esse é um tipo de interatividade em que o telespectador também é um autor. Outro exemplo: eu assisto a um programa com três personagens; uma delas sai da sala. Com a realidade virtual, eu posso escolher se fico nessa sala ou se acompanho a pessoa que saiu, para saber o que vai fazer. E aí é outra TV, outro cinema, outro audiovisual.

Que avaliação o senhor faz sobre a implementação da classificação indicativa pela TV?

A classificação indicativa é necessária. Os canais é que às vezes reclamavam. Acho que o projeto está se acomodando, mas ainda existe muito mau uso disso. Todo dia a gente vê programação à tarde com filmes impróprios. Ainda há essa tentativa de tentar driblar a lei com a programação. A defesa dos canais em não aderir era dizer que as famílias é que deviam cuidar disso. Mas isso é complicado, especialmente com as novas tecnologias. É impossível controlar isso, a não ser não exibindo em horário indevido. E há de se considerar também o momento histórico e a cultura do lugar. Quem tem 18 anos hoje tem uma relação com o mundo diferente do que há 50 anos. Jovem brasileiro é muito diferente do latino-americano, conhece mais coisa, tem mais liberdade sexual. E isso vai se refletir na programação e no que é considerado inadequado para cada idade.

 
Orlando Senna: iniciou sua trajetória no audiovisual na década de 1960, como crítico de cinema. Foi produtor, roteirista e diretor de filmes, dos quais se destaca Iracema, feito em 1974, mas só liberado para censura seis anos mais tarde. Foi diretor da Escola de Cinema de Cuba e ocupou o cargo de secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura, entre 2003 e 2007. Atualmente, é presidente da TV TAL – Televisão América Latina e um entusiasta das novas possibilidades que os avanços tecnológicos proporcionarão ao audiovisual.